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Com o DDG protagonista, mercado brasileiro de ração vive novo momento de expansão

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O mercado brasileiro de ração animal vive um momento único. Impulsionado pelo crescimento na produção nacional de proteínas animais e pela intensificação dos sistemas produtivos, o segmento encontra-se em um ciclo de expansão consistente, que deve alcançar, muito em breve, a histórica marca de 100 milhões de toneladas produzidas anualmente. 

Para 2026, o Sindicato Nacional da Indústria de Alimentação Animal (Sindirações) projeta uma produção de 97 milhões de toneladas, ante 94 milhões registradas no ano passado e 91 milhões em 2024. 

Segundo o CEO do Sindirações, Ariovaldo Zani, apesar das recentes volatilidades enfrentadas principalmente relacionadas à questões cambiais, logísticas e geopolíticas –, a demanda global por proteína animal permanece firme, o que sustenta o protagonismo do Brasil como um fornecedor seguro de carnes.

“Nesse contexto, a indústria de nutrição animal tem respondido com maior sofisticação técnica, adotando práticas de gestão mais eficientes, incorporando tecnologia e avançando em nutrição de precisão”, afirma Zani.

 

Base tradicional segue dominante


Mesmo com a presença no mercado de novas matérias-primas que podem ser utilizadas para formulações, a espinha dorsal da nutrição animal no Brasil segue praticamente inalterada: milho e farelo de soja.

Na visão do zootecnista e pesquisador da Embrapa Gado de Corte, Rodrigo da Costa Gomes, essa predominância tem razões econômicas e logísticas: “eles são os padrões ouro para o fornecimento de energia, no caso do milho, e proteico, no caso do farelo de soja”, explica.

Segundo o pesquisador, o custo por unidade nutricional é determinante. “Quando a gente calcula o custo da unidade de energia do milho ou da proteína do farelo de soja, normalmente eles são superiores à maioria dos outros ingredientes”, afirma. 

O domínio técnico do setor sobre esses ingredientes e a ampla disponibilidade deles em todo o território nacional também reforçam essa liderança.

Dados da DATAGRO Grãos mostram que a produção brasileira de milho deverá alcançar 144,04 milhões de toneladas na safra 2025/26, crescimento de 1% em relação ao colhido no ciclo passado. Desse volume, 61,29 milhões de toneladas (42,5% do total) devem ser utilizados na produção de ração. Na temporada 2024/25, 59,50 milhões de toneladas de milho tiveram essa finalidade, o equivalente a 41,5% do total produzido. 

Paralelamente, a produção brasileira de farelo de soja saltou 21% nos últimos cinco anos e deve alcançar 47,74 milhões de toneladas na safra 2025/26, ainda de acordo com a DATAGRO Grãos.

 

Alternativas ganham espaço


A hegemonia do milho e do farelo de soja no mercado de ração ainda está distante de ser substituída. No entanto, cresce o uso de ingredientes alternativos, impulsionado pela necessidade de reduzir custos e aumentar a resiliência das formulações.

Entre os substitutos energéticos, destacam-se sorgo, milheto, trigo, aveia e outros cereais de inverno. “Dependendo da região, esses ingredientes podem ser bastante competitivos”, explica Gomes.

No campo proteico, opções como farelo de algodão e farelo de amendoim vêm sendo incorporadas. Nessa esteira, coprodutos agroindustriais também ganham relevância, como a polpa cítrica e o bagaço da cana-de-açúcar especialmente em estados como São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul.

Zani observa que, em alguns casos, esses ingredientes deixam de ser apenas alternativas pontuais para assumir papel estratégico. Ainda assim, limitações persistem, como sazonalidade, concentração regional e necessidade de adaptação da infraestrutura industrial.

 

DDG: o divisor de águas


Entre todas as mudanças em curso, a expansão da oferta brasileira de DDG, subproduto do processamento de milho para produção de etanol, desponta como o principal fator de transformação do mercado.

Rico em proteína, energia e fósforo, o DDG tem a capacidade de substituir parcialmente tanto o milho quanto o farelo de soja nas dietas. “Ele pode trazer praticamente quase toda a proteína da dieta e ainda ajudar a substituir um pouco da energia do milho”, explica o pesquisador da Embrapa.

Essa característica híbrida o torna particularmente atrativo, sobretudo em regiões próximas às usinas de etanol, onde o custo logístico é menor. Dados da DATAGRO Grãos indicam que a produção brasileira de DDG deve sair de 1,132 milhão de toneladas na safra 2020/21 para 3,975 milhões de toneladas em 2025/26.

Acompanhando o aumento da produção de etanol de milho no Brasil, a oferta nacional de DDG não deve parar de crescer. Atualmente, existem no país 31 usinas em operação (sendo 13 flex), além de 20 unidades em construção e 17 já anunciadas, mas ainda em fase de estudos para serem implementadas. 

O avanço do DDG na alimentação animal está alinhado a uma lógica mais ampla de sustentabilidade e integração das principais cadeias produtivas do agronegócio brasileiro ao unir os setores de grãos, sucroenergético e pecuário. 

“Sua utilização reforça o conceito de economia circular, ao aproveitar resíduos industriais que não competem diretamente com a alimentação humana”, afirma o presidente do Sindirações.

No entanto, o pesquisador da Embrapa ressalta que a substituição do farelo de soja pelo DDG exige cuidado e análise econômica e nutritiva. 

“Não se deve olhar apenas o custo da tonelada, mas o custo do quilo de proteína”, ressalta Rodrigo, destacando que, apesar de mais barato por tonelada, o DDG pode ter proteína mais cara que o farelo de soja, dependendo da sua composição.

Dados coletados diariamente pela DATAGRO mostram que o preço do DDG em Mato Grosso atualmente está com uma média de R$ 1.065 por tonelada, ante R$ 1.200/t um ano atrás. Já o farelo de soja está em R$ 1.730/t, contra R$ 1.700/t no final de março de 2025.     

 

Produção dentro da fazenda avança


Outra tendência relevante no mercado de ração é o aumento da produção dentro das próprias propriedades rurais. Segundo Gomes, produtores mais tecnificados e com maior escala têm investido em estruturas próprias.

“O que a gente vê de tendência é cada vez mais o produtor fazer a sua ração na fazenda”, afirma. Nesses casos, o pecuarista compra os insumos como milho, farelo de soja, DDG e minerais e realiza a mistura internamente.

A estratégia permite maior controle sobre a formulação e redução de custos, especialmente em sistemas intensivos, como confinamentos. Por outro lado, exige investimento em infraestrutura, o que limita sua adoção por produtores menores. 

Assim, o mercado convive com dois modelos: compra de ração industrializada e produção on-farm, com crescente protagonismo desta última entre grandes produtores.

 

Dependência externa em minerais e inovações


Enquanto avança na diversificação energética e proteica, o Brasil ainda enfrenta forte dependência de insumos importados na nutrição mineral, especialmente o fósforo.

“Muitos dos insumos da suplementação mineral são importados, o que nos coloca à mercê dos choques externos de preços, especialmente em momentos de guerra, como o que estamos passando hoje”, afirma Rodrigo. 

Tendo isso em vista, Rodrigo e a equipe da Embrapa Gado de Corte têm concentrado esforços para encontrar e desenvolver aditivos alimentares que possam substituir em parte essa demanda mineral. Outra frente de trabalho da equipe é o desenvolvimento de tecnologias capazes de reduzir perdas de suplementação em até 25%, principalmente por meio de melhorias na estrutura de cochos e manejo no campo.

A combinação de crescimento da demanda, pressão por custos e avanços tecnológicos está transformando o setor de nutrição animal no Brasil. A digitalização, o uso de coprodutos e a diversificação de insumos indicam um caminho de maior flexibilidade e integração entre os elos da cadeia.

Nesse contexto, o DDG simboliza mais do que um novo ingrediente: representa a transição para um sistema mais eficiente, sustentável e menos dependente de insumos tradicionais, ainda que milho e farelo de soja continuem, por ora, no centro das formulações.